No desenho do Divertidamente 2 eles falam sobre as memórias episódicas que são os pilares da nossa identidade. No livro do Peter Levine Trauma e Memória, ele também explica as memórias episódicas e a importância delas na nossa autoimagem e o papel das memórias nos traumas e como isso afeta a vida da criança e do adulto. Trauma é importante porque trauma leva para um lugar longe do Amor, e Amor é espiritualidade, Amor é qualidade de vida, Amor é terreno e é transcendência, onde há mais Amor há menos guerra, menos competição, mais colaboração e mais qualidade de vida.
Fazendo o exercício no post anterior, éramos em 3, sendo que o diálogo se passa com um eu, o espichado, que também sou eu, e um eu que corria atrás dos pombos.
O espichado estava ali. E o que corria atrás dos pombos, agora eu vi o rosto dele, raiva, eu vi os olhos vermelhos. Tanta raiva. Na minha relação com as meninas da 3a série e mais ou menos por essa época tinha muita raiva. Correndo atrás dos pombos para descontar a raiva que não conseguia descontar em nenhum lugar, uma raiva acumulada após o ab[]s0 s&x[]@l.
O esbelto (antigo espichado), o esbelto separa a memória dos pombos da memória do “ralo”, o ralo foi o dia do evento em que acontece um ato para chamar atenção ao ab[]s0. Um ato que eu só fui entender lendo esse livro.
A memória do “ralo” foi quando eu, ainda como criança, exibi uma parte minha a todos os meus colegas, com uma mistura de raiva, necessidade de atenção, necessidade de ultrapassar limites e ao mesmo tempo que era uma forma de deixar todos desconfortáveis, era uma forma de pedir ajuda tão intensamente – isso é descrito no livro acima. E isso aconteceu num pátio interno onde tinha um ralo grande, por isso a memória do ralo.

Essa parte esbelta minha, atualmente, separava a memória dos pombos da memória do ralo como mostrada na imagem abaixo. No topo da cabeça do esbelto tem vergonha acho. Muita vergonha.
E antes dessa memória do ralo, tem uma memória de uma festinha de aniversário do pré-primário ou jardim de infância. E é impressionante como eu alterei a memória do aniversário do pré para lembrar a partir da perspectiva de um adulto, da minha mãe. Eu não sei como isso é possível ou se é possível, parece que a cabeça do esbelto pegou a emoção da minha mãe de orgulho e colocou dentro da cena da festinha (a cena da festinha não está representada na imagem abaixo).

Essa parte em azul no banquinho, é uma parte emocional separando duas memórias episódicas e a relação entre elas.
R => Raiva
V => Vergonha
T => Tristeza
É bastante coisa para uma parte sentir.
Depois de escrever isso, enquanto estava aqui almoçando senti o cheiro da salada e lembrei da casa dos meus avós, eram almoços que combinavam o amor e o carinho dos avós, com o desespero e angústia que vinha dos pais (eles também tinham amor, mas numa época era muito mais angústia e desespero, minha percepção que ficou registrada é de que eles não faziam idéia do que fazer com eles mesmos naquela época) e eu já esstava confuso. E aí misturava alegria, conforto do amor dos avós, conforto da comida boa, respostas fisiológicas repetidas com a endorfina da comida boa, e do amor, com aquela correria desenfreada de será que vamos sobreviver hoje. Tudo isso somado ao ab[]s0 s&x[]@l, eu virei várias geléias de mocotó, naquele estado bem duro – todas as emoções se solidificaram e viraram um ponto e um Sankhara gigantesco onde tudo rodava em torno delas, e de tentar resolvê-las.
E isso se tornou a minha identidade, um sentimento de solidão, um sentimento de ninguém vai dar conta se eu compartilhar o que eu realmente sinto, uma parte que consegue sorrir (veja o sorriso ali no esbelto) mesmo sentindo raiva, tristeza e vergonha, uma parte que recebe amor ao ficar durante vários almoços horrívelmente desconfortáveis por um lado, e como uma criança e um adolescente depende dos adultos para sobreviver e se ele contesta muitas vezes dizem que aquilo não faz sentido para quem está na situação não ter que lidar com a situação, ele acha que tem algo errado com ele, e aí fica replicando toda essa bagunça no mercado de trabalho.
Quantas pessoas não projetam as questões com o pai e com a mãe nos chefes, quantos não têm inveja dos seus colegas de trabalho, pois queriam uma atenção que não receberam na infância? Quanta gente não aprendeu a gerir suas próprias emoções e traz toda essa bagunça para o trabalho?
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